segunda-feira, 20 de setembro de 2010

diário ─ capítulo 30

Boa manhã, sr Ramos. Mas hoje eu vou falar o que não falei ontem.
Sr Ramos, ontem eu acordei e fui dormir chorando. Tenho que parar. Não aguento mais ficar deprimido. Senhor Ramos, ontem eu acordei nem triste e muito menos feliz. Como sempre. Passei o dia praticamente na mesma situação. Até ouvi a Transamérica Fm com o programa Adrenalina. Lá passa todos os tipos de música com uma mixagem que deixa músicas tediosas até legalzinhas. E de noite a mesma coisa.

Com um porém. Quando fui dormir várias lágrimas saíram do meu rosto por vontade própria. Hoje algumas lágrimas ainda persistiam em cair.

De vez em quando, eu sinto que já morri. Mas ainda não percebi quando e como. Ou as pessoas que passam por mim sentem a minha presença como se eu fosse um fantasma ou um amigo invisível de criança com imaginação muito fértil.

Prefiro a noite. No breu da madrugada me sinto como eu realmente sou: Nem homem e nem mulher. Apenas uma alma em algum corpo disforme ou sem forma definida vagando pelo mundo em busca de amor e aceitação. Sinto uma carência tremenda de afetividade paterna. De elogios paternos. De aceitação paterna ou de qualquer coisa que crianças que tem um pai que se importe com elas tem.

Me sinto órfão de pai com um pai dentro de casa. O senhor Alberto está morrendo enquanto eu morri diversas vezes tentando renascer. E nunca consegui renascer. As cinzas não se tornam pedras de terra. Se tornam pó. E pó de cinza vira adubo de planta e almoço de vermes e bactérias.

Não volto mais a vida. Há muito mais coisas no outro lado que ligam a ele do que aos seres vivos. O breu me esconde e me dá vida. Me dá imagem em ação. Imaginação, movimento. Sensação de liberdade das dores, doenças e limitações humanas. No Breu posso ser homem e estar frente a frente ao meu homem exterior e interior. No escuro do breu posso lidar com feras monstruosas de lugares desconhecidos como adestradores de leões e suas feras. No escuro do breu posso ser Eva. Posso ser Adão. Fale Eva e Adão rapidamente. No escuro do breu posso ser Isaías, Jacó. Posso ser Ícaro. Posso ser Era. Posso ser Hércules. No escuro do breu posso ser todo mundo e posso não ser ninguém. Posso criar asas e voar. Posso participar de competições onde não eu entro. Posso ser um feliz biliardário em sua casa de veraneio ou um pobre mendigo viajando por toda Europa como se fosse uma dona de casa presa em seus afazeres.

No escuro do breu? AH! Se eu tivesse o breu 24 horas diários eu teria o mundo à minhas mãos. Por que Sr Ramos? No escuro do breu eu sou Deus. Posso criar o planeta a partir de cinzas e água. Sepaar o céu da terra e char de firmamento. Abrir os vulcões e chamar inferno. Fazer crescer as plantas e as montanhas e chamar de lar. Fazer nascer os animais a partir das plantas e depois dos animais e chamá-los seres de deus. Fazer nascer de um dos animais os seres mais belos e inteligentes que posso imaginar e chamá-los meus filhos. Vê-los morrer de velhice. Sem ver o sol. E então dizer faça-se a luz e permitir o brilho de um sol. E criar novos seres inteligentes e bonitos e chamá-los também meus filhos. E daí em diante dar-lhes o que for necessário a sobrevivência. Numa terra criada a partir do breu eu sou rei, sou pai, sou mãe terra, sou gaia, sou os plebeus, sou os pobres e os podres de ricos, sou quem eu quiser. No claro sou quem eu sou.

Não, sr Ramos, no claro eu sou quem eu devo ser. Por que sr Ramos? Só tenho um corpo. Sou um plebeu igual aos outros. Sou um reles mortal que tem talvez uma nova vida pela frente a partir da morte literal. Não posso fazer nada além do que estiver aos meus olhos e nas regras da física. No claro eu sou ninguém. Com um h maiúsculo de homem e humano. E com a mesma cara de idiota e inconsequente que tem todos os homens jovens e não sábios.

No escuro do breu posso ser quem eu quero. No claro do dia eu tenho que sofrer como homem e gritar as vezes como uma menininha pra ser notado e achar que sou alguém.

No escuro do breu a física não existe. As leis da gravidade são ignoradas. Por que eu sou deus no escuro do breu. Eu posso ignorar as leis da física e da natureza a partir da minha vontade. Posso burlar as leis da origem e do nascimento. Posso fazer nascer e crescer de uma abelha um ser humano com a minha aparência, seja ela qual for. Posso me apaixonar por mim com um gêmeo de aparência sendo eu enquanto eu sou deus. Posso fazer deste eu simplesmente a pessoa da mina vida. Posso voar, nadar feito peixe, respirar do ar mais pesado, viajar todo o planeta e as constelações sem me preocupar.

Mas o claro do dia insiste em aparecer e acabar com a minha alegria.

Isto não justifica minhas crises de chorar matinais e noturnas. Mas nada justifica nada. Cansei de o que. Agora eu quero o por que e o como. Quem sou eu? Meu nome é "Sem Nome". Sou jovem, não sou bonito, tenho a aparência que você imaginar.

Entretanto tenho muitas coisas a dizer. E vou dizer uma hoje, agora: Na minha mente Deus sou eu. No mundo da minha mente não há quem se meta. Por que na minhamente não há juíz, não há júri e não há religião. Há um mundo inteiro na minha cabeça. Este mundo não foi criado pelo teu deus. Ele foi criado por mim em menos que sete dias. Com ajuda dos meus anjos, antianjos e contra-anjos. Não há mais ninguém a quem considerar a autoria. No mundo que eu criei. Com a vida que eu criei se alguém se meter sofrerá as consequencias que eu definir. Sofrerá das infrações que eu determinar como cometidas.

For today it's all. See you later, Mister Ramos. I like you so much. I love you like you my father. I love you by me. You listened me. You hear all i say. You make me say all i think.

J'adore vous, monsieur Ramos. J'aime vous. A bientôt.

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