terça-feira, 19 de outubro de 2010

diário2 ─ capítulo 27

Boa noite, senhor Ramos. Hoje estou vindo apenas dizer que quero muita gente muito bem. Senti pena de duas pessoas hoje. Uma delas foi uma crente que veio à minha porta. A outra foi minha mãe. Menti descaradamente pras duas. Minha mãe, por que eu não precisava mentir tantas vezes seguidas para evitar ser pego na segunda mentira. E a crente, por que ela podia simplesmente perguntar se eu queria ouvir e eu dizer não. Entretanto, não há nada que eu possa fazer quanto à isto. Já foi. Menti duas vezes por motivos distintos. A da minha mãe, foi pelo motivo de não ter pedido dinheiro para o jantar pra ninguém, mas não poder contar que não pus todo o dinheiro no cartão. Senão meu pai teriame pego. Cansei de ter que pedir dinheiro. Se quisesse ficar pedindo ia pra rua pedir dinheiro.

Cansei sinceramente de aguentar meu pai. Poderia viver sem ter conhecido ele e ter todo o conforto que a falta do pai pode trazer. Teria conhecido coisas que só pais de filhos órfãos podem ensinar. Teria tido todo o conhecimento que só pessoas sem pai podem ter. Teria crescido jovem, bonito e forte. E não um magrelo raquítico que mais parece um retirante. Adoraria ter sido órfão. Assim como adoraria ter tido a possibilidade de ter escolhido meu pai neste momento.

Teria certamente escolhido o melhor pai que acredito que teria: um pai biliardário. Alguém sem noção do que significa 1000 reais e não sabe o quanto vale a felicidade. Por que teria escolhido ele? Senhor Ramos, Ele é que poderia me dar toda a felicidade de que preciso. Como se nada mais pudesse me fazer infeliz. Teria vivido tudo o que o dinheiro pode me proporcionar. Teria conseguido tudo sem o menor esforço. Teria o corpo e os olhos e a tecnologia que me fizesse gostar de ter. Não teria a menor possibilidade de ter algum constrangimento. Nada me pararia. Seria completamente feliz.

Esta é uma boa pergunta, senhor Ramos. O que eu faria se pudesse voltar no tempo? Voltaria 18 anos atrás e me roubaria. Depois me venderia para um casal de alemães como se eu fosse meu filho e não tivesse como dar o menor conforto para mim. Qual a mudança? Teria sido feliz, saberia a diferença do amor paa a privação e conheceria a fundo um casal paterno que me daria todo o amor que eles pudessem ter por um adotivo.

Teria crescido, no mínimo, forte e bonito. Sedutor talvez. E outras característicase que se adquirem com confiança, respeito e amor.

Lamento mais por mim, neste momento. Poderia ter feito tanta coisa. Ter tido tanta coisa. Ter conhecido tanto tipo de tecnologia que nunca vi na vida. Poderia ter tido todo tipo de experiência.
Enfim, estou eu acá, à espera de um anjo carregado da grana que me dê a oportunidade do golpe do baú com direito à toda felicidade que a grana pode ir buscar.

Nunca me impotaria em ser escravo da grana. Desde de que ela viesse com amor, respeito e honrarias. Sou capitalista. O mínimo só trás felicidade para quem já teve de tudo. E eu nunca tive nada. Nem minhas oupas são minhas. São doações. Como se eu precisasse receber doação de todo tipo de coisa. Isto se deve por que a desgraça ruim, a anta do meu pai, o demônio disfaçado de beato, a besta fera, me fez crescer mendingando afeto e dinheiro dele como se eu fosse apenas um mísero escravo.

Um serviçal teria maior respeito por um inferior, mesmo que este fosse seu filho. Como disse anteriormente, se ainda tivesse alma, eu a vendia. Ao preço que fosse para ser feliz ser realmente rico.

Felicidade e amor pra mim não basta.

O amor é lindo, até chegar a primeira conta.E os filhos. E os parentes.

Não há amor que resista aos parentes e ao casamento.

Já não sinto mais nada em relação ao meu corpo. Já posso vendê-lo sem a menor cerimônia. Quem eu queria não me quer e nunca irá me querer. Não digo o por que, por que não posso e não quero me complicar mais. Prefiro proteger a este novo eu que se chama Alberto Rangel. Jovem, arrumado, inteligente e perto da morte por causa do câncer. Ele vai morrer. O que faço depois disto? Não depende de mim. Ele é quem comanda agora.

A bientôt, monsieur Ramos. I'll sleep down now. Thank you for listn me.

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