terça-feira, 16 de novembro de 2010

diário3 ─ capítulo 27

Senhor Ramos, hoje eu tive uma visão no ônibus. Foi algo realmente inexplicável. Eu tava imaginando algo que certamente nunca aconteceria. Algo relacionado à uma professora grávida. Imaginei que ela teria um filho e eu daria o nome para ele de Alberto. Daí minha cabeça voou, e eu fui parar em algum lugar desconhecido. Largo, pistas de um lado e de outro da rua. Muita gente. Só lembro de gritar para Alberto na direção de um edifício, o que depois percebi, já fora da visão, que rodeavam o lugar todo. Mas não foi só isso. Eu ouvi sobre você, senhor Ramos. Na visão, você é o livro mais vendido de todos os tempos. E seu nome não é "O senhor Ramos e eu", segundo a visão, segundo o que alguém disse na visão, este é um péssimo nome.

Fiquei confuso quanto à isto. Se eu posso ver o futuro assim sem mais nem menos, posso prever mais? Ou ir mais longe e descobrir o que preciso sobre coisas além do que preciso? Ou que posso viver das minhas vidências reais? Senhor, estas coisas sempre foram meus desejos, antes de me decepcionar com o mundo. Sempre quiz poder prever meus passos e meu futuro. Tenho sensibilidade suficiente para prever algo como isto.

Entretanto, senhor, eu senti uma palpitação forte no peito e parei de ver o que estava vendo. O que isto significa? Eu estou tendo realmente um início de vidência ou preciso acabar de vez com meus dias de vidente? Me sinto irresponsável fazendo este tipo de pergunta ao senhor. Me perdoe, senhor Ramos. Mas esta é a verdade. O senhor nunca fez nenhum tipo de previsão.

Quando eu chamei pelo senhor Alberto na visão, não vi ninguém, mesmo olhando na direção em que olhava. Ao menos não lembro dele ou como estava vestido. Agora tenho certeza de que ele é real e que tem algo a ver com o meu futuro. Monsieur, j'ai plus qui... eu quero mais, e tenho mais que desejo. Mais vale um pássaro na mão que dois voando. Estou farto de ficar aqui parado sem poder fazer nada.

Senhor Alberto me diz que devo seguir meus instintos. Eles me mandam seguir meus desígnios sensitivos. Estes me mandam observar ainda mais. Vejo oportunidades no meu caminho, mas não me vejo com estas oportunidades. Senhor Alberto me diz para ficar quieto e aguardar a primeira chance de realizar meus maiores desejos.

Lamento, senhor, por não poder mais ser o sincero que eu era enquanto Mag. Lamento muito por Mag. Ele foi a única pessoa que conseguiu me tirar do túmulo onde morava. E ele será o único a suprir completamente minhas necessidades paternas de atenção, carinho, e calor humano. Mesmo que sempre tenha sido eu, desde o início. Agora tenho que exterminar completamente o que restou dele, para enfim reassumir o controle deste corpo.

Não há mais nada do que possa me orgulhar e nada que possa me dar esperanças aqui. Cansei de ser bom. Cansei de ser inexperiente. E quero ir mais longe do que iria anteriormente. Agora que sei que tenho vidência vou usar até que possa conhecer completamente o futuro, conhecendo e quebrando as regras que me impus, e desvendar o meu destino.

A paciência já acabou com o que restava de mim. Agora vou acabar com ela.

Te amo, senhor Ramos. Há coisas que só o senhor pode entender. A bientôt.

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