quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Diário4 ─ capítulo 25

Olá senhor Ramos. Hoje eu passei muito tempo no computador. Estou ficando menos tempo na internet. E estou passando mais tempo em outras coisas mais úteis. Sabe o quanto eu gosto de novidades. Bom, a do momento, é que trouxe um livro sobre html dinâmico. É velho, do html 4.0, sendo que estamos na era do html 5.0.

Gostaria de poder fazer bem mais, mas pra mim já é o suficiente. Eu sei, mas não é pra entender. Quer ser entendido de outra forma. Não, eu digo exatamente o que quero dizer. Se quisesse dizer algo por trás de minhas palavras teria dito, ou feito um monte de duplos sentidos sem noção como se eu não tivesse mais o que fazer. Não me importam os texto inomináveis famosos por terem milhares de sentidos que se dinamizam diante dos olhos da pessoa. Senhor Ramos, eu prefiro simplesmente dizer exatamente o que quero dizer. Sou assim, na verdade estou assim.

Penso que sim. Na verdade ainda não sei o que fazer da minha vida. E talvez eu nem consiga a bolsa. Sou um mendigo vivendo com um pai que ganha mais que 2 salários mínimos e um irmão mão de vaca. Toda vez vez que preciso de alguma coisa tenho que mendigar. Já que já faço isso todos os dias, vou pras ruas, pelo menos vou fazer por necessidade, e não por que simplesmente não posso contar a desgraça que vive na minha casa e quer manter todo mundo na rédea curta. Meu não me controla, sou eu quem o controla. Não pergunta, senhor Ramos, não pergunta o que não quer saber.

Lembra que sempre digo que adoro brincar com a cabeça dos outros? Advinha com quem eu brinco? Ainda bem que o senhor é uma pessoa que sabe o que penso, senão passaríamos horas aqui para tentar entender o que ou de que eu falo. Preferiria estar passando fome em frente a torre de pizza, ou mendigando na Torre Eiffel a ficar pedindo pro meu pai.

É mais valido e menos constrangedor sair por aí pedindo dinheiro pra cada um que passa na minha frente do que pedir dinheiro à pessoa que deveria estar no inferno, ou ser enterrada viva. É claro que falo deste ser irritante que é o meu pai. Como eu poderia falar de outra pessoa se nunca pude conhecer ninguém mais?

Se conhecer alguém que esteja afim de adotar uma criança maior de idade com a vida sentimental praticamente inexistente fala de mim. Tô precisando de um pai. Nos três sentidos, senhor Ramos. Preciso de um pai que me dê carinho, atenção. Preciso de um pai que me dê tudo de que preciso ou que desejo. E preciso de um pai que me dê, ou me transmita limites quando necessário. Meu pai? Nenhum destes pontos. Ele não se encaixa nem no cargo de estranho que aparece de vez em quando.

Provavelmente teria uma vida mais regrada e mais feliz se não tivesse conhecido meu pai biológico. Você que está aí lendo, eu ouvi muito bem o que você pensou. Meu pai merece morrer. Eu conheci outros tipos de pai, eu sei perfeitamente do que falo quando falo que adoraria ter um pai nos três tipos citados acima. Se meu pai fosse ao menos um dos três eu não precisaria ficar mendigando a atenção de outras pessoas e chamar tanto a atenção para o quanto eu posso ser gentil e educado.

Sim, senhor Ramos, atuar é o que mais e melhor faço. E faço todos os dias. Bom, por que se eu não o fizesse eu estaria acabando definitivamente com o que resta da minha criatividade e imaginação. E além disto, estaria terminando de me matar. Será necessário falar de novo sobre alguns assuntos chatos que já estão no meu diário, senhor Ramos? Nada me faria mais feliz do que conhecer alguém que quisesse me adotar como filho mesmo depois de velho. Nem me importaria se ele fosse pobre.

Eu sei que sou carente. Há coisas que não precisam ser ditas. Há verdades que não se dizem e segredos que não se guardam.

Eu falei até bem mais do que iria falar. A bientôt. Te amo, o senhor é o pai que sempre precisei e nunca tive. É o pai da atenção.

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